O Julgamento e Morte de João Huss

23/12/2009 13:37

O Julgamento e Morte de João Huss

 Tradução de João A. de Souza Filho

 

 

Nota: A tradução que você tem em mãos foi feita a partir do volume VI às páginas 190 do livro History of the Church de Philip Schaff no item 45,  Huss em Constância.  

Tu que és a Rocha deles, fortaleza e poder;

Tu, Senhor, o Capitão de Guerra

Tu, que das trevas fazes luz. Aleluia! 

Grande expectativa tomou conta da assembléia no Concílio de Constância  ao tratar das perturbações que aconteciam no reino da Boêmia. Todos entendiam que algumas medidas deveriam ser tomadas contra a heresia que invadira a igreja Ocidental. Em duas cartas remetidas a Conrad, arcebispo de Praga, Gerson testemunhou que em centros intelectuais fora da Boêmia os nomes de Wycliff e de João Huss eram interligados. De todos os erros de Huss, escreveu o chanceler, “a proposta é de que um dos homens mais perigosos vivendo em pecado mortal não deve continuar a ter domínio sobre os cristãos. E tal proposição, como se sabe, passou de Wycliff para Huss”.1

Sigismund rei dos romanos e herdeiro da coroa boêmia sentiu-se aliviado da vergonha do hussetismo e, da cidade de Lombardy enviou ele uma delegação para intimar Huss a comparecer perante  o concílio, prometendo-lhe que lhe daria segurança e que lhe daria salvo-conduto. O reformador expressou sua prontidão em atender ao concílio, e colocou cartazes nos muros de Praga anunciando sua decisão. Escrevendo a Wenzel e sua rainha reafirmou sua prontidão declarando que estava pronto para sofrer as penalidades indicadas para um herege, se fosse condenado. 2

Em 1 de setembro de 1414 Huss escreveu a Sigismundo que estava pronto para viajar a Constância “sob salvo-conduto de sua proteção, e do Senhor Altíssimo o meu defensor”. Uma semana depois o rei respondeu expressando confiança de que, ao comparecer, todas as imputações de heresias seriam removidas das acusações do rei da Boêmia.

No dia 11 de outubro de 1414 João Huss iniciou sua jornada chegando a Constância no dia 3 de novembro. Estava acompanhado de três nobres da Boêmia, John de Chlum, Wnzel de Duba e Henry Lacembok. Acompanhando John de Chlum estava Mladenowitz que prestou um excelente serviço preservando as cartas de Huss e mais tarde publicando-as com suas notas. As cartas de Huss deste tempo em diante merecem um lugar na literatura biográfica dos cristãos da história. Por seus fatos, simplicidade de expressão e devoção a Cristo os escritos da Idade Média não fornecem nada superior ou melhor.

Em cartas remetidas aos seus amigos na Boêmia na véspera de sua partida, Huss manifestava sua expectativa em ser confrontado pelos bispos de Constância, pelos doutores da igreja, príncipes e pelos cânones, sim, de ser confrontado por mais inimigos que o Redentor teve que enfrentar.

Ele orou para que, se sua morte fosse para a glória de Deus, que o Senhor o capacitasse a enfrentá-la sem medo e sem pecado. Uma segunda carta não deveria ser aberta, exceto se morresse. Era uma carta escrita a Martin, um discípulo a quem Huss afirmava conhecer desde criança. Nela, Huss exortava a Martin a temer a Deus, que tivesse cuidado ao ouvir as confissões de mulheres e que não o imitasse em suas frivolidades ou culpa como as que ele cometera em outros tempos quando jogava xadrez.

A perseguição haveria de fazer o pior porque João Huss atacou de frente a luxúria e a incontinência do clero. Ele deixou orientações para Martin, caso fosse morto, que ficasse com seu paramento cinza e que desse ao reitor sua beca branca e ao seu servo fiel, George um guinéu (Moeda antiga de ouro, NT).

O caminho que tomou passava por Nurembergue e ao longo do trajeto Huss era saudado por uma multidão de curiosos. Nesta localidade acomodou-se em hospedarias de padres discutindo seu caso com eles. Em Nurembergue os magistrados e o burgo local o convidaram para um encontro na hospedaria. Supondo ser desnecessário se encontrar com Sigismund que se encontrava em Spires, a equipe se dirigiu diretamente ao lago de Constância. Ao chegarem nas praias superiores enviaram seus cavalos para serem vendidos, uma sábia medida, como se provou depois, tendo em vista que milhares de animais eram cuidados em Constância. 3

Em Constância João Huss se hospedou na “segunda viúva de Sarepta” que havia guardado a fornada para o pombo branco. A casa ainda existe. A presença dele mexeu com o povo da localidade e ele entrou na cidade cavalgando em meio a uma grande multidão.

No dia seguinte John de Chlum e o Barão Lacembok lembraram da promessa feita pelo Papa João XXIII de que nenhuma violência seria usada contra Huss. Ele prometeu que Huss poderia circular pela cidade, mas o proibiu de participar das missas. Inda que sob sentença de ex-comunhão Huss realizava missas particulares em seus aposentos. Os cardeais reconheciam que uma pessoa acusada publicamente de heresia deveria gozar de liberdade, e que qualquer coisa negativa atribuída a Huss deveria ser rapidamente julgada. Uma pessoa não tinha direitos nas barras dos tribunais eclesiásticos no século XV quando um herético estava sob julgamento. Antes que terminasse o mês Huss foi preso sob alegação de que tentaria fugir da cidade escondido numa carroça de feno. 4

No dia 28 de novembro dois bispos de Trento e de Ausburgo foram até a hospedaria de Huss com uma solicitação de que comparece perante os cardeais. A casa foi cercada pelos soldados. Depois de hesitar um pouco, Huss cedeu e saiu deixando sua hospedeira em pé na escadaria em lágrimas. Era o começo do fim.

Depois da audiência com os cardeais o prisioneiro foi levado por um pelotão e em uma semana estava seguro e trancado entre muros no calabouço de um convento dominicano. Na realidade o lugar vinha sendo preparado havia vários dias com fechaduras resistentes, trancas e mobiliários fortes.

Neste calabouço Huss agonizou por três meses. Sua cela era depósito de latrinas. Começou a ter febre e vômito e parece que o castigo funcionaria. João XXIII merece algum crédito por enviar alguns médicos, que receitaram clister conforme o próprio Huss relatou. À enfermidade seguiu-se a proibição de ter livros incluindo a Bíblia. Nenhuma carta dele temos durante dois meses. As cartas recomeçaram em Janeiro de 1415 e fornecem com clareza a indignidade a que Huss estava exposto e a miséria que sofria. Eram cartas enviadas para fora da cadeia com a ajuda do carcereiro.

Afinal, e Sugismund, o rei, o que estava fazendo? Ele havia assinado a carta com o salvo-conduto no dia 18 de outubro. No dia anterior à sua chegada a Constância, 24 de dezembro, John de Chlum afixou uma carta na catedral protestando que o acordo feito pelo rei foi negligenciado pelos cardeais. Sugismund confessou que estava aborrecido com tudo, e isto foi o fim. Ele era um príncipe que se deixava persuadir pelos argumentos de figuras eclesiásticas como D´Ailly que insistia que temas insignificantes como as heresias de Huss não seriam impedimentos para a reforma da igreja que era a principal preocupação do concílio e que erros não reprovados eram erros que não se perpetuavam. 5

Todos os fieis da igreja oraram para que sua Majestade não cedesse às mentiras e sutilezas dos wyclifistas. O rei de Aragão escreveu que Huss deveria ser morto imediatamente sem qualquer julgamento formal e sem ser ouvido.

Enquanto esteve preso no convento dos Black Friars, Huss  escreveu folhetos sobre os dez mandamentos, sobre a oração de Jesus, pecado mortal e casamento especialmente para seu carcereiro. Dentre as 13 cartas preservadas daquela época, a maior parte era dirigida a John de Chlum o amigo em quem confiava. Algumas das cartas eram escritas à meia-noite e outras em pedacinhos ou tiras de papéis. 6

Nessas cartas quatro coisas ficam evidentes: Huss confiava na palavra de honra do rei, manifestava seu intenso desejo de ser ouvido num concílio aberto, falava da possibilidade de morrer e de sua confiança em Deus. Ele temia que a sentença de morte viesse antes dele ter uma oportunidade de falar com o rei. “Se esta é a honra dele, é questão dele”, escreveu. 7

Entrementes o concílio entregou a questão de heresia para um comitê tendo D´Ailly como presidente. Huss foi questionado tendo como prova vários temas tirados de seus artigos. Stephen Paletz seu amigo apóstata o atormentava mais que os outros. O pedido de Huss de ter um advogado foi negado, e a sentença de morte não saía da cabeça de Huss. Mas, assim como o Senhor havia liberto a Jonas do ventre do peixe e Daniel da cova dos leões, ele continuava crendo que Deus o livraria, se assim o quisesse.

João XXIII temia que os amigos de John Huss providenciassem sua fuga da prisão e entregou as chaves da cadeia para Sigismund. No dia 24 de março o bispo de Constância algemou o prisioneiro e o transferiu de barco para seu castelo em Gottlieben. Lá Huss tinha liberdade de caminhar, livre das algemas durante o dia, mas era amarrado e imobilizado durante a noite. John Huss ficou em Gottlieben durante setenta e três dias, do dia 24 de março a 5 de Junho. Se Huss escreveu alguma carta durante este tempo elas se perderam. É uma história estranha que o papa fugitivo fosse levado preso para Constância e depois enviado para Gottlieben para ser companheiro de cela de Huss. O pontífice, que já fora chefe da igreja, estava sendo condenado por cada desvio de moral conhecido, o outro, um pregador cuja vida era testemunho aos seus contemporâneos, sem mácula ou mancha. O papa criminoso, depois de um breve confinamento foi libertado e recolocado no cargo de dignidade, e Huss seria condenado como um religioso fanático e queimado como forma de expiar a teologia ortodoxa.

Em Gottlieben, Huss sofreu hemorragias, dores de cabeça e outras doenças chegando a ponto de quase morrer de fome. Um novo comitê tendo D´Ailly como presidente, no dia de seis de abril confirmou as heresias de Huss e de Wycliff que o concílio considerava como iguais. 8

Mas os amigos de Huss não o abandonaram e 250 nobres moravianos e boêmios protestaram contra o tratamento dado “ao amado mestre e pregador cristão” e solicitaram que Huss tivesse uma audiência pública e que depois retornasse para sua casa. Para que o prisioneiro ficasse mais próximo do comitê Huss foi transferido no começo de junho para uma terceira prisão – num convento franciscano. Dos dias 5 a 8 de junho a audiência se deu no refeitório repleto de cardeais, arcebispos, bispos, teólogos e pessoas mais simples. O cardeal D´Ailly se fez presente e tomou a frente dos trabalhos.  A ação condenatória do dia 4 de maio que condenava os 260 erros e heresias das obras de Wycliff  foram adaptadas com o fim de tirar de Huss qualquer esperança de libertação. Huss foi acusado de afirmar que Cristo está no pão consagrado assim como a alma está no corpo, que Wycliff era um bom cristão, que a salvação não dependia do Papa e que ninguém podia excomungar uma pessoa a não ser o próprio Deus. E que Huss manifestara desejo de ver sua alma unida à de Wycliff  na eternidade. 9

Quando mostraram uma cópia de seu livro sobre a Igreja, eles gritaram: “Queimem-no”. Sempre que Huss tentava explicar seu ponto de vista, era interrompido com gritos de “fora com seus sofismas. Apenas responda, sim ou não”. O inglês John Stokes que estava presente declarou que até parecia que Wycliff estivesse ali sentado pessoalmente diante dele.

No dia 7 de junho Huss declarou que Deus e sua consciência estavam do seu lado, no que foi retrucado por D´Ailly: “Não podemos seguir sua consciência diante de tantas evidências, e a própria prova de Gerson contra você. Ele é um dos mais renomados doutores do cristianismo.” 10

D´Ailly e um senhor da Inglaterra tentaram mostrar a ligação da doutrina com o realismo. Huss retrucou que tal arrazoamento era próprio da lógica infantil. Um outro inglês corajosamente afirmou: Huss está quase certo: O que tem a ver essas tolices com as questões de fé? Sigismund advertiu a Huss de que deveria se submeter afirmando que ele avisara o comitê para que nenhum herético que continuasse a se firmar em suas heresias fosse defendido. Assim, enquanto um único herético estivesse vivo ele mesmo acenderia a fogueira pra queimá-lo.

Huss, naquela noite escreveu sua defesa sob forte dor de cabeça, com vômitos e dores de dente. No dia 8 de junho entregaram-lhe 39 artigos dos quais 29 foram tirados de seu livro sobre a Igreja. Quando Huss se demorava em explicar algumas de suas declarações, D´Ailly fazia questão de ler diretamente dos originais escritos por Huss. Ao ler a passagem de que nenhum herético deveria ser morto, a audiência rompeu em gritos de zombaria. Huss usou como argumento o caso de Saul depois que desobedeceu a Deus em relação a Agague afirmando que os reis em pecado mortal não têm direito à autoridade. Neste exato momento Sigismund estava na janela conversando com Frederico da Bavária. Os prelados aproveitaram para gritar: “Diga ao rei que Huss o está atacando”. O imperador virando-se, afirmou: “John Huss, ninguém vive sem pecar”. D´Ailly sugeriu que o prisioneiro estava tentando atacar também a monarquia.

Na tentativa de quebrar a força de sua própria declaração, Huss perguntou por que eles haviam deposto o papa João. Sigismund retrucou que Baldassarre era o papa verdadeiro, mas que fora deposto por seus notórios crimes.

Os 39 artigos defendiam que a igreja é composta de todos os eleitos; que um sacerdote deveria continuar a pregar ainda que estivesse sob sentença de ex-comunhão, e que quem estiver em pecado mortal não poderia exercer autoridade. Huss mostrou-se disposto a revogar as declarações que não estivessem apoiadas pelas escrituras e por bons argumentos, mas isto não revogaria nada do que não pudesse ser provado. Quando Sigismund discordou, Huss apelou para a justiça de Deus. Ao encerrar o expediente D´Ailly declarou que um acordo não podia ser feito e que Huss deveria abjurar. 11

Quando Huss foi colocado à disposição do arcebispo de Riga, John de Chlum se arvorou de coragem e lhe estendeu a mão. Sua atitude nos lembra das palavras amigáveis que George Frundsberg falou a Lutero em Worms. A atitude encheu o coração de Huss de gratidão, e logo depois escreveu ele de sua alegria de ver Lord John que não se intimidou de estender a mão a um pobre e abjeto herege, prisioneiro em ferros e de quem tanto falavam mal.

Dirigindo-se ao plenário depois da partida de Huss, Sigismund argumentou que era contrário que se aceitasse submissão de um prisioneiro que, se solto, voltaria à Boêmia e semearia abertamente seus erros. “Quando eu era um menino”, disse, “lembro-me do primeiro rebento desta seita, e veja a que ponto chegou nos dias de hoje. Algum dia teremos que acabar com tudo isto, e ao retornar de minha jornada trataremos deste estudante. Qual o nome dele?”. A resposta era Jerônimo. Sim, disse o rei, refiro-me a Jerônimo. (NT. Discípulo de João Huss Jerônimo de Praga também foi levado ao martírio na figueira).

O próprio Huss declarou que foi lançado numa prisão pestilenta por pessoas que pensavam em resgatá-lo ou “lançar o cesto” para que ele escapasse. Ele creditava as acusações a falsos testemunhos. Muitas das acusações não eram falsas, e é difícil entender como ele pensava em se ver livre das acusações fazendo uma declaração pública, em vista da condenação anteriormente feita às doutrinas de Wycliff. Ele se mantinha convicto de que nenhum dos artigos usados como argumentos contra ele eram contrários ao evangelho de Cristo, mas os cânones da lei eram mais confiáveis e mais aceitas no concílio do que as Escrituras.

Um doutor da igreja lhe disse que se o concílio afirmasse que ele tinha só um olho, ele deveria aceitar o veredicto. Huss respondeu que se todo o mundo lhe dissesse isso, ele não acreditaria nem ofenderia sua consciência e apelou para o caso de Eleazar no livro dos Macabeus que declarou que não faria uma confissão mentirosa.12   Na realidade ele estava colocando sua casa em ordem. Ele escreveu várias mensagens ao seu povo na Boêmia e a John de Chlum. Ele exortava os irmãos que ouvissem apenas os sacerdotes de boa índole, especialmente os que estudavam a palavra de Deus com sinceridade. A Martin ele pediu que lesse a Bíblia diligentemente, especialmente o Novo Testamento.

No dia 15 de junho o concílio decidiu proibir que os leigos não podiam beber do cálice (da ceia). Huss condenou tal decisão como iníqua e maligna, e tal decisão significava a condenação do exemplo de Cristo que deixou ordens de se beber do cálice. Escreveu a Hawlik encarregado da capela de Belém que não privasse os leigos de beber do cálice.13

Havia provas inequívocas de que o concílio era falho, porque num dia beijava os pés de João Huss como paradigma de virtude, chamando-o de “o mais santo”, e no outro o condenava como “vergonhoso homicida, sodomita, simonita e herético”. Ele citava um provérbio comum aos suíços, de que uma geração não conseguiria purificar os pecados cometidos em Constância . As trevas caíram e cercaram o prisioneiro. No dia 24 de junho, o concílio ordenou que suas obras fossem queimadas, até mesmo as escritas no idioma tcheco, num tom de ironia – escreveu ele – porque o concílio não podia ler naquele idioma. Ele exortou seus amigos a que não se deixassem intimidar, porque também os livros do profeta Jeremias que falara em Nome do Senhor foram queimados.

Seu interesse apaixonado pelo povo de “seu glorioso país”, pela universidade de Moldau e seus sentimentos de gratidão aos amigos que o apoiavam mantinham-no imbatível. Uma terrível morte o aguardava, mas ele trazia à mente os sofrimentos dos apóstolos e dos mártires, e especialmente as agonias sofridas por Cristo, e acreditava que as chamas da fogueira o purificariam completamente. D´Ailly lhe respondera em certa ocasião de que Huss deveria obedecer peremptoriamente a decisão dos 50 doutores da igreja e se retratar sem questionamentos. Huss escreveu: “Um lindo preço de informação, como se a virgem Sta. Catarina fosse obrigada a renunciar a verdade e sua fé no Senhor porque 50 filósofos a ela se opunham”. 14

No dia primeiro de Julho os arcebispos de Riga e Ragusa juntamente com 6 prelados encontraram-se com ele tentando-o convencer a se arrepender. Uma declaração escrita de próprio punho feita por Huss foi sua resposta negativa. 15 Os líderes da igreja fizeram mais um esforço enviando no dia de 5 de julho os cardeais D´Ailly e Zabarella e o bispo de Halum de Salisbury. Huss encerrou a discussão declarando que preferia ser queimado mil vezes a abjurar, porque se abjurasse ofenderia os que ele mesmo havia ensinado. 16

Outros mensageiros foram enviados pelo rei Sigismund, entre esses os três amigos de Huss, John de Chlum, Wenzel de Duba e Lacembok e mais quatro bispos. Por ser leigo John de Chlum não o exortou mas o animou, caso estivesse certo de sua causa, que permanecesse fiel a Deus mesmo que tivesse de enfrentar a morte. Um dos bispos perguntou se ele se achava mais sábio do que todos os membros do concílio. Não, foi a resposta, mas se retrataria se lhe convencessem de seus erros e das escrituras. “Um herético obstinado!” disseram os bispos. Esta foi a última entrevista particular. A oportunidade de se manifestar novamente diante do concílio surgiu, e seria seu último dia na terra.

Depois de sete meses na prisão e profundamente desapontado, no dia seis de julho, um sábado, Huss foi levado até a catedral. Eram seis da manhã. Ele ficou em pé, do lado de fora esperando o término da missa. Depois foi conduzido ao recinto sagrado, mas não para se defender, como ele imaginava – porque viera a Constância não para ser ouvido e sim para ouvir a sentença que o condenava como herege e criminoso. 17 O bispo de Lodi pregou sobre Romanos 6.6 “para que o corpo de pecado seja destruído”. A exterminação dos heréticos foi apresentada como a coisa mais importante a agradar a Deus,  e o pregador usou a ilustração desgastada do pedaço de carne podre e da fagulha que põe fogo a um grande incêndio e ao câncer feroz.

Quanto mais virulenta a ferida, mais fogo tem de ser usado para cauterizá-la. Ele elogiou o rei Sigismund de que seu nome seria cantado em triunfo por seus esforços de desarraigar o cisma e de destruir a heresia.

Patrick, bispo de Cork, apontado pelo concílio para pronunciar a sentença subiu ao púlpito. Quaisquer expressões de sentimento com os pés ou com as mãos, qualquer vociferação ou tentativa de perturbar a ordem foram sumariamente proibidas. Foram lidos os 30 artigos que foram declarados heréticos, sediciosos e ofensivos aos ouvidos pios. A sentença alinhava o relacionamento amistoso de Wycliff e Huss. 18 O primeiro artigo acusava o prisioneiro de sustentar que a igreja é composta da totalidade dos predestinados, e o último de que nenhuma autoridade civil ou prelado poderiam exercer autoridade se estiverem em pecado mortal. Huss suplicou para falar, mas foi impedido.

A sentença afirmava que “o santo concílio, tendo Deus como testemunha, condena  a João Huss de ter sido e de ser, verdadeiramente e na realidade um herético declarado, não como discípulo de Cristo, mas de João Wycliff, alguém que na universidade de Praga e na presença do clero declarou ser Wycliff católico e não um doutor evangélico - vir catholicus et doctor evangelicus.". Ordenava que Huss fosse destituído da ordem sacerdotal, e para não exceder ao poder da igreja que fosse entregue a autoridade secular.

 Nenhuma voz contrária se ouviu contra a sentença. Até mesmo John Gerson a apoiou. Apenas um incidente deixou sua marca na história. Dizem que quando Huss começou a falar, olhou para o rei Sigismund e o lembrou do salvo-conduto que havia sido violado. O rei que estava assentado, se enrubesceu, mas não reagiu. Mas não há registros históricos disso.

O cumprimento da ordem para despojar a Huss de suas funções foi levada a termo por seus bispos, que tiraram as roupas de Huss e cortaram sua tonsura. Colocaram em sua cabeça um chapéu de papel com desenhos de demônios, onde estava escrito: herege, e entregaram sua alma ao diabo. Altivo e olhando para todos, Huss exclamou: “E eu me entrego à graça de nosso Senhor Jesus Cristo”.

O velho adágio de que a igreja não quer sangue - ecclesia non sitit sanguinem – foi aparentemente observado, mas as autoridades sabiam perfeitamente de que esta seria a últma cena quando Huss fosse entregue a Sigismundo. “Tome-o e trate-o como um herege”, foram as palavras ditas pelo rei ao prisioneiro entregue a Louis, Conde de Palatina. As ruas estavam apinhadas de gente. Quando Huss caminhava viu uma fogueira na praça que consumia seus livros. Com medo da ponte desabar grande parte da multidão foi impedida de acompanhar Huss até o local da execução, chamado Praça do diabo (Devil´s Place). Os passos de Huss eram firmes, mas agora, com lágrimas na face, ajoelhou-se e orou. Quando o chapéu de papel caiu da cabeça a multidão gritou que deveeria ser recolocado ao avesso.

Era meio-dia. As mãos do prisioneiro estavam amarradas fortemente às costas e presas também ao pescoço por uma corrente. No mesmo local, algum tempo antes, escreveu um cronista, a velha mula que pertencia a um cardeal havia sido queimada. O monte de palha e madeira chegava ao pescoço de Huss e gravetos foram jogados sobre ele. A chance de viver foi-lhe oferecida se ele se arrependesse. Ele a recusou e disse: “Hoje morro alegre na fé do evangelho que tenho pregado”. Richental que estava ao lado sugeriu-lhe um confessor, e Huss declarou: “Não preciso de um confessor. Não tenho pecado mortal”. A pedido dos pesentes viraram o rosto dele do Leste e enquanto as chamas subiam ele cantou duas vezes, Ó Cristo, Filho do Deus vivo tem misericórdia de mim. O vento lançou as chamas no rosto do mártir e sua voz emudeceu. Ele morreu orando e cantando.

As vestes de Huss e suas sandálias foram lançadas no fogo, para que não houvesse possibilidade de se preservar quaisquer relíguas do mártir. As cinzas foram jogadas no Reno.

Enquanto este cenário acontecia o concílio continuou seus negócios, como se a fogueira fora dos portões da cidade fosse algo corriqueiro. Três semanas depois o concílio anunciou que punir o boêmio como herege agradou a Deus. Este episódio tem sido lembrado através das gerações.

Nenhum dos membros do concílio de Constânça, até onde sabemos falou alguma coisa contra a sentença. Nenhum Papa ou sínodo ecumênico se desculpou perante a história. Nenhum historiador Católico moderno conseguiu provar que as doutrinas de Huss eram heréticas, inda que a sentença foi pronunciada em obediência aos princípios dos cânones católicos. Até agora os dogmas de uma igreja infalível e de um papa infalível são crenças absolutas da igreja católica, e, ao que parece nunca se ouviu um pedido de desculpas.

Diferentemente do protestantismo. É parte da natureza do protestantismo confessar seus erros e repará-los. Quando a corte de Massachusetts descobriu que havia errado no caso da feiticeira de Salém em 1692 fez uma confissão pública de seu erro e reparou os danos aos descendentes. O Juiz Sewall um dos líderes da perseguição fez um pedido público de desculpas pelo erro cometido. A mesma corte reconsiderou sua ação contra Roger Willians. Lutero dirigiu-se a nobreza alemã pedindo que a igreja de Roma confessasse seu erro ao queimar Huss. O sangue inocente de Huss clama da terra.

Huss morreu por defender Wycliff. A sentença do concílio os unia como se fossem uma só pessoa. 19 Lutero afirmou grotescamente mas de maneira verdadeira que Huss cometeu o atroz pecado de declarar que um pontífice romano de vida ímpia não poderia ser chefe da igreja católica.20

Lá pelo ano 1500 os irmãos boêmios (resultantes da pregação de Huss) já eram mais de 200 mil espalhados em cerca de 300 ou 400 congregações na Boêmia e na Moravia (Parte da Alemanha e Tchecoslováquia). Possuíam sua própria declaração de fé, catecismo e seus próprios hinos. Dos 60 livros escritos na Boêmia entre 1500-1510 cinqüenta eram dos Irmãos. Um novo período na história desses irmãos começou com Lucas de Praga que morreu em 1528, um grande escritor. Ele expôs os fundamentos da doutrina dos Irmãos quanto a ceia do Senhor. Irmãos, como Michael Weiss, o compositor, visitou o reformador Lutero e em 1521 deu a este uma cópia do catecismo dos Irmãos.

No entanto, a perseguição terrível aos Irmãos e aos remanescentes dos hussitas começou sob o governo austríaco de Ferdinando I em 1549 e continuou, com breves interrupções até a guerra dos trinta anos quando, quando sob a inspiração dos jesuítas o governo decretou leis inclementes com o fim de limpar a Boêmia e a Moravia da ação dos heréticos.

A igreja dos Irmãos ressurgiu entre os morávios quando Christian David e outras famílias hussitas receberam terras em 1722 do Conde Zinzendorf em Herrnhut. Conseguiram assim preservar o nome de seus pais espirituais, Unitas Fratrum, e deixaram uma herança missionária, pois partiram para os lugares mais remotos da terra, indo da Groenlândia às Índias Ocidentais e Guiana, e desde as colônias de leprosos de Jerusalém ao Tibet e à Austrália, levando o evangelho de Cristo.

Nos Estados Unidos David Zeisberger e outros missionários moravianos deixaram seus frutos entre as tribos indígenas, lembrando sempre de João Huss, cujo corpo foi consumido pelas chamas em Constância, mas não sua memória sagrada e sua influência nos anos por vir.

 


1 Van der Hardt, I. 18; Palacky, Docum., pp. 523-528.

2 Essas cartas e outras cópias do manuscrito estão em Workman, Hus’ Letters, p 140 ss

3  Huss guardou um dos cavalos para ele diante da possibilidade de ter que visitar Sigismund. Escrevendo para Constância no dia 4 de novembro, afirmou que os cavalos ali eram muito baratos. Um deles que havia sido  comprado na Boêmia por 6 guinéus foi vendido ali por 7 florins ou a terça parte do preço original. Cartas, p 158.

4  A acusação foi relatada por Richental p 76 da obra citada. Sua história fica invalidada pela falsa data que ele fornece e também pelo testemunho de Mladenowtiz que declarou não ser verdade aquele relato. Caso houvesse alguma tentativa de fuga não passaria despercebido e teria sido noticiado. Veja Wylie p 139.

5  Numa audiência com Sigismundo D´Ailly protestou que factum J. Hus et alia minora non debebant reformationem eccles. et Bon. imperii impedire quod erat principale pro quo fuerat concilium congregatum. Fillflastre, em  Finke, p 253.

6 Ao ler uma das cartas na capela de Belém, Hawlik exclamou: Puxa! Huss está sem papel! E John de Chlum menciona que uma das cartas de Huss  estava escrita “em pedacinhos de papel amassados”. Workman: Huss

7  Workman: Cartas, pp 174, 182, 184, 190

8 Veja  o diário do Cardeal Fillastre em Finke Forschungen, pp 164, 179.

9  Utinam anima esset ibi, ubi est anima Joh. Wicleff. Mansi, xxv II. 756.

10  Nos non possumus secundum tuam conscientiam judicare, etc. Palacky, Doc 278. Tschackert, , pp 225, 235 disse D´Ailly disse que seria obrigado a desvestir sua roupa púrpura se não tivesse resistido aos pontos de vista de Huss. Huss disse sobre Gerson, O si deus daret tempus scribendi contra mendacia Parisiensis cancellarii, Palacky, Doc. 97. Gerson foi ainda mais longe ao afirmar que Huss estava sendo condenado por seu realismo. Veja Schwab, pp 298, 586

11 Veja Tschachkert p 230. D´Ailly insistiu em sua posição depois de sair de Constância. Para ele Wicliff e Huss eram os piores hereges, pernitiosi heretici. Van der Hardt, VI. 16.

12  Workman: Hus’ Letters, pp 226, 289-241.

13  Veja Workman, pp 185, 245, 248.

14 Workman, p 264.

15 Ibid. p 276.

16 Non vellet abjurare sed millisies comburi, Mansi, XXVII. 764.

17 Ad medium concilii ubi erat levatus in altum scamnum pro eo. Mansi, XXVII. 747.

18 Os artigos estão em Mansi pp. 754 sq., 1209-1211, e Hardt, IV. 408-12.

19 BUDDENSEIG, Huss, Patriot and Reformer, p 11, diz: “O movimento hussita não passa de um mero wyclifismo”. A Missa Wiclefistarum ran, Credo in Wykleph ducem inferni patronum Boemiae et in Hus filium ejus unicum nequam nostrum, qui conceptus est ex spiritu Luciferi, natus matre ejus et factus incarnatus equalis Wikleph, secundum malam voluntatem et major secundum ejus persecutionem, regnans tempore desolationis studii Pragensis, tempore quo Boemia a fide apostotavit. Qui propter nos hereticos descendit ad inferna et non resurget a mortuis nec habebit vitam eternam. Amen.

20 Nota no apêndice dos escritos de Huss, edição de 1537. John Foxe em seu livro dos Mártires falou claramente: “A vida, obra e cartas de Huss provam que ele não foi condenado por erros na doutrina, porque ele não negava a transubstanciação papal, nem falou contra as autoridades da igreja de Roma, nem contra os sete sacramentos ... ele foi acusado de falar contra o luxo e a pompa da igreja, contra o orgulho e a avareza dos bispos e papas, cardeais e prelados...”